domingo, 29 de agosto de 2010

Do joystick para o cockpit!

Até que ponto os games podem ser realistas? Até que ponto o videogame pode reproduzir as sensações de dirigir um bólido numa pista real?

Eu sou um grande fã de games de corrida em geral e também sou um dos que defendem que até hoje nenhum game de corrida pode de fato ser chamado de simulador. Talvez um dia consiga-se criar um verdadeiro simulador de carros, mas até lá não dá pra comparar um piloto real, do virtual. O programa Top Gear da BBC britanica fez uma matéria a respeito, veja o video no YouTube.

Maaaaaaas existem exceções.
O piloto português Miguel Gomes iniciou nas pistas virtuais do game F1 Grand Prix (o da Microprose de 1992) até chegar aos carros da European Late Model Series.


Confira a entrevista que ele deu ao site SimRacing Portugal (é grande bagarai, mas muito legal!)


SRP: Antes de mais bem-vindo à primeira entrevista para o portal SRP, podemos começar pelos teus dados pessoais, que idade tens em que localidade resides e qual a tua actividade profissional?
   
M.G: Obrigado, tenho 29 anos, vivo em Lisboa e sou eng. informático de profissão.

SRP: Quando começou a tua paixão pelo desporto automóvel?

M.G: Começou desde muito pequeno, com 2 ou 3 anos. O meu pai inventou um motor para o meu carro de corridas a pedais, usando um berbequim. Não tinha travões nem nada, era andar até bater em qualquer coisa!
Depois a paixão foi crescendo com as primeiras corridas de F1 que vi na TV, na altura das lutas entre Senna e Prost no final dos anos 80, e depois ainda mais quando começaram a aparecer os simuladores para pc.
A paixão pelo NASCAR em particular surgiu quando vi uma corrida pela primeira vez na tv. Aquela cor, os carros sempre tão juntos e a luta intensa fascinaram-me. Mas fiquei definitivamente “apaixonado” depois de ver o filme Days Of Thunder.

SRP: Interessante que o pequeno carro que falas, já tinha o número 46, foi daqui que nasceu a tua preferência pelo número?

M.G: Se calhar inconscientemente sim, sempre foi um número que gostei mas só ha pouco tempo descobri as fotos desse carro, já nem me lembrava que com 2 anos já “conduzia” um 46. Mas o sonho de um dia correr com o 46 surgiu quando vi o filme “Dias de Tempestade” pela primeira vez.
 
SRP: Estás registado no SRP desde 2005 mas o teu contacto com simracing foi anterior não?

MG: Sim, começou em 1992 quando tive o meu primeiro contacto com um verdadeiro simulador.

SRP: Qual foi o simulador em que te iniciaste?

M.G: O F1 Grand Prix da Microprose. Era um vício enorme! Tentava seguir à risca a F1 real, fazia os treinos às sextas, qualificação ao Sábado e corrida aos Domingos seguindo o calendário real.

SRP: Quanto tempo correste virtualmente?

M.G: Contando com o offline corro desde 1992. Em competições online começou em 2002, com o NASCAR Racing 2002 Season, há 7 anos portanto.

SRP: Como foi essa transição de piloto virtual a piloto real? um sonho tornado realidade? Tiveste que abdicar de algo?

M.G: Tudo começou em 2007 quando conheci o francês Thierry Haenel num campeonato online de NASCAR Racing 2003 (N2003). O Thierry era um piloto “real”, tinha participado em várias competições, uma delas o campeonato Britânico de stock-cars conhecido por SCSA (e também por ASCAR/Days of Thunder Series) na oval de Rockingham em Inglaterra. Depois de muitas disputas nas pistas virtuais ele disse-me que devia fazer os Rookie Tests para tentar ficar apto para entrar no campeonato em 2007. Sem qualquer experiência automobilistica foi ele também que convenceu uma das equipas organizadoras a deixar-me entrar nos testes.

Éramos 7 candidatos, todos tinham experiência automobilistica (Rally, GT’s, etc) menos eu que só tinha feito karting amador e simuladores. Não pensei sequer que ia chegar a conduzir o carro de competição, um potente V8 de 450 cavalos que naquela pista faz médias por volta acima dos 230 Km/h. Mas, para minha surpresa, acabei por ser um dos 3 considerados aptos e o mais rápido no teste final.

Foi um sonho tornado realidade sem dúvida. Abdicar de algo não digo mas para continuar o sonho tive que lhe dar prioridade na minha vida e investir nele, nunca deixando de acreditar.
 
SRP: Para quem não conhece, conta-nos um pouco mais sobre o campeonato European Late Model Series?

M.G: A European Late Model Series é um novo campeonato a nível Europeu, uma espécie de NASCAR à Europeia. Resultou da fusão, no inicio deste ano, do campeonato Britânico de stock-cars (ex ASCAR/Days of Thunder/SCSA) com campeonato o Belga CAMSO V8, um campeonato de late models que corria apenas na oval Belga de Warneton. Está numa fase ainda embrionária mas com o número de fãs de NASCAR a crescer pela Europa penso que tem bastante potencial.

Em 2010 terá bastantes novidades, a começar por um calendário bem mais equilibrado. O principal problema para já são as diferenças entre os carros. Os do ex-campeonato Britânico, conhecidos por ASCAR têm 450 cavalos, os do ex-campeonato Belga, conhecidos por CAMSO têm 400 mas são 200 Kg mais leves, para além de chassis ser diferente também. Nas pistas curtas onde corremos este ano os CAMSO mostraram-se muito mais competitivos. Corri num ASCAR nas 3 jornadas que fiz já que esse são os carros da equipa Britânica que me tem acolhido desde 2007, mas também tive oportunidade de testar um CAMSO.

Consegui na última jornada do ano ser o melhor dos ASCAR mas com os CAMSO era muito difícil competir. Apesar de menos potentes os CAMSO são bastante mais estáveis conseguindo sair melhor das curvas e andar mais facilmente no lado de fora da pista. Ainda não se conseguiu um acerto que tornasse os ASCAR suficientemente estáveis para poder competir com os CAMSO por isso para o ano são esperadas novas regras que os tornem mais “iguais”.
 
SRP: No seio da European Late Lodel Series é sabido que vieste com experiência essencialmente dos simuladores? sentiste algum desconforto por parte de outros pilotos, nomeadamente os mais velhos?

M.G: No seio deste novo campeonato há alguns pilotos que sabem, pelo menos os que fazem parte da minha equipa, mas não sinto desconforto por isso, antes pelo contrário, sinto mais curiosidade da parte deles.

Senti desconforto foi antes dos testes de Rockingham em 2007. Antes de começarem os testes houve uma apresentação de cada um dos 7 pilotos candidatos, em que cada um falava da sua experiência automobilistica. Eu de facto experiência real não tinha nenhuma… e quando disse que apenas tinha experiência de karting (amador) e simuladores houve um silêncio na sala, acho que ninguém acreditou que chegasse mesmo a conduzir o carro de competição. Mas fui passando nos testes, primeiro em minis, e quando cheguei ao carro de competição a sério, o potente V8 de 450 cavalos, as semelhanças com a condução dos carros do N2003 eram impressionantes. Senti-me confortável logo depois das primeiras voltas. Esse foi sem dúvida o segredo, mesmo sem experiência automobilistica real tinha algo que os outros pilotos não tinham: muita experiência virtual a conduzir aquele tipo específico de carros cuja condução é completamente diferente de um GT, um fórmula ou um carro de Rally.

SRP: Na preparação para uma corrida, continuas a usar os simuladores para aprender e treinar na pista em que vais correr a seguir? Se sim quais simuladores?

M.G: Sim sem dúvida, por exemplo quando corri em 2008 em Brands Hatch treinei bastante no NASCAR Racing 2003 nessa mesma pista onde, num simulador, nunca tinha corrido com um carro daqueles. Com apenas 15 minutos de treinos “reais” esse treino de simulador foi importante. Este ano só tenho corrido no iRacing, principalmente nos late models, e as vezes no N2003, mas até ao inicio da próxima época quero experiementar outros simuladores e treinar o mais possível para estar em boa forma em 2010.

SRP: Costumavas mexer muito nos setups nos simuladores? achas semelhantes os ajustes que fazias nos simuladores com os que fazes na European Late Model Series?

M.G: Confesso que não sou especialista em setups. No N2003 quase toda a gente usava os mesmos setups, os do Volker Hackman. Eu fazia o mesmo e apenas os ajustava à minha condução. Mesmo assim sei o básico (gearing, molas, pressões dos pneus, etc) e já me aconteceu sugerir ajustes ao carro real que fazia no simulador para tornar o carro mais adaptado à minha condução. Mas tenho que aprender mais para ajudar a equipa a chegar aos melhores ajustes.

SRP: Já passaste por alguma situação em pista, cuja experiência nos simuladores fosse importante para ter bom resultado?

M.G: Sim já passei por muitas situações em que essa experiência foi fundamental. Por várias vezes consegui “salvar” um peão da mesma forma que fazia no simulador, a reacção instintiva que tenho é a mesma que tenho no simulador. Também a desviar-me de incidentes que acontecem à minha frente essa experiência de simulador ajuda imenso, porque são coisas que acontecem nas corridas virtuais em que temos que reagir da mesma forma e com a mesma rapidez que nas corridas reais.

SRP: Depois do teu primeiro top-ten, tens as coisas encaminhadas para continuar em 2010?

M.G: Tenho alguns apoios em vista mas ainda não os suficientes para fazer a temporada toda de 2010. Depois de neste ano ter participado em 3 das jornadas triplas, com o apoio da empresa onde trabalho, a Altitude Software (que se tornou o meu primeiro patrocinador “oficial”) esse é o grande objectivo, fazer o campeonato todo para o ano. Mas para isso são necessários mais apoios, estou a trabalhar nisso.

SRP: Tens algum conselho a dar para quem queira tentar seguir os teus passos?

M.G.: Se o sonho de ser piloto real é suficientemente grande então lutem por ele sem nunca baixar os braços. Primeiro é preciso entrar no meio depois torna-se mais fácil, vão-se conhecendo pessoas e surgem mais oportunidades. É também preciso ser realista e perceber onde está o vosso potencial, verem qual o tipo de corridas que mais gostam e onde é que são mais competitivos. Ah e nunca deixem de treinar no simulador porque quanto mais treinam mais vão desenvolvendo as vossas capacidades e ficando mais preparados para conduzir um carro de competição a sério.

SRP: Ídolo será talvez exagerado mas tens alguma referência no que diz respeito a pilotos?

M.G: O Pedro Lamy sem dúvida. Acompanhei sempre de perto a carreira dele e continuo a achar que é o melhor piloto português de sempre. Tive pena de ele não ter tido oportunidade de ser piloto numa grande equipa da F1 porque acho que tinha todas as capacidades para ser campeão do mundo.

SRP: Muito obrigado pelo teu tempo, o SRP deseja-te o melhor e todos seguiremos a tua carreira mais de perto. Vai dando notícias.

M.G: Eu é que agradeço! Encontramo-nos em pista…nas reais ou virtuais;)

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